Por que eu engordei sem comer mais? A verdade que ninguém te conta sobre a perimenopausa
Julyana Navajas • 2 de junho de 2026

Por que eu engordei sem comer mais? A verdade que ninguém te conta sobre a perimenopausa


Dra. Julyana Navajas — Endocrinologista · CRM-SP 149434 · ~7 min de leitura


Você está comendo igual, se movendo igual — talvez até melhor do que antes — e mesmo assim a balança sobe, a roupa aperta e a barriga cresce. Se isso soa familiar, preciso que você saiba de uma coisa antes de tudo: você não está fazendo nada de errado.

Esse é um dos relatos mais comuns que ouço no consultório. Mulheres na faixa dos 38 aos 52 anos que chegam confusas, frustradas e, muitas vezes, se culpando por algo que tem uma causa muito específica: a transição hormonal da perimenopausa.


"Doutora, eu jurei que estava ficando louca. O corpo parecia não ser mais meu."

Essa frase, dita por uma paciente minha, resume exatamente o que acontece quando o estrogênio começa a oscilar — muito antes do fim da menstruação. E o ganho de peso é apenas um dos sinais desse processo.


O que é, afinal, a perimenopausa?

Perimenopausa é o período de transição que antecede a menopausa. Pode durar de 2 a 12 anos — sim, até doze — e começa, em média, aos 40 anos, mas pode iniciar ainda nos 35. O sinal mais marcante não é o fim da menstruação, mas sim a oscilação dos hormônios, especialmente do estrogênio e da progesterona.


Essas flutuações hormonais afetam praticamente todos os sistemas do corpo: metabolismo, sono, humor, memória e, claro, o peso.


Sinais de que você pode estar na perimenopausa:

  • Ciclo menstrual irregular
  • Dificuldade para emagrecer
  • Gordura abdominal nova
  • Sono fragmentado ou insônia
  • Ondas de calor ou suor noturno
  • Ansiedade ou irritabilidade aumentada
  • Queda de libido
  • Cansaço mesmo dormindo


Por que o peso muda sem mudar nada na alimentação?

Essa é a pergunta central — e a resposta está em três mecanismos que acontecem ao mesmo tempo, de forma silenciosa.


1. O estrogênio regula onde a gordura se deposita

Quando o estrogênio estava estável, ele direcionava o armazenamento de gordura para quadril e coxas — uma distribuição que, embora incomode esteticamente, é metabolicamente mais segura. Com a queda do estrogênio na perimenopausa, o corpo passa a depositar gordura preferencialmente na região abdominal e visceral.


Isso explica por que a silhueta muda mesmo quando o peso na balança não sobe drasticamente. A composição corporal está se redistribuindo.


2. A queda hormonal reduz a taxa metabólica basal

Estrogênio e progesterona têm efeito direto sobre a sensibilidade à insulina e sobre o metabolismo energético. Com a queda desses hormônios, o corpo passa a gastar menos calorias em repouso — o chamado metabolismo basal cai. Isso significa que a mesma quantidade de comida que antes mantinha o peso agora gera um pequeno excedente calórico diário.



Ao longo de meses, esse excedente se acumula. Não porque você comeu mais — mas porque seu corpo passou a "gastar menos" com o mesmo combustível.


3. O cortisol ganha terreno — e engorda na barriga

O estrogênio tem efeito protetor sobre o cortisol, o hormônio do estresse. Com menos estrogênio, o cortisol fica mais elevado e mais reativo. Cortisol alto cronicamente aumenta o apetite (especialmente por carboidratos simples) e estimula o acúmulo de gordura visceral — aquela gordura profunda, em torno dos órgãos, que aumenta o risco cardiovascular.


Não é fraqueza, não é preguiça e não é falta de força de vontade. É bioquímica. E bioquímica tem solução

.

O que não funciona mais — e por quê

As estratégias que funcionavam antes dos 35 anos simplesmente não respondem da mesma forma durante a perimenopausa. E isso não é culpa sua — é porque o problema mudou.


  • Dieta hipocalórica restritiva: pode funcionar no curto prazo, mas sinaliza escassez para o organismo, elevando ainda mais o cortisol e reduzindo a taxa metabólica. O efeito sanfona piora.
  • Cardio de alta intensidade em excesso: sem o suporte hormonal adequado, o treino muito intenso eleva o cortisol e pode piorar a inflamação, prejudicando o emagrecimento.
  • Ignorar o sono: na perimenopausa, o sono ruim é uma das maiores causas de resistência ao emagrecimento. Uma noite mal dormida eleva grelina (hormônio da fome) e derruba leptina (hormônio da saciedade).


O que realmente funciona na perimenopausa

A boa notícia é que existe um caminho — e ele é mais inteligente do que fazer mais esforço.


  • Avaliação hormonal completa: não apenas TSH e glicose. Estrogênio, progesterona, testosterona livre, insulina, cortisol e composição corporal por bioimpedância ou DEXA fazem parte do mapa real.
  • Priorizar proteína e força muscular: a massa muscular é o principal órgão metabólico do corpo. Protegê-la e aumentá-la é a estratégia mais eficaz e sustentável para mulheres nessa fase.
  • Manejo do cortisol: isso inclui qualidade do sono, gestão do estresse, protocolos nutricionais anti-inflamatórios e, quando indicado, suporte medicamentoso individualizado.
  • Terapia hormonal — quando indicada: a reposição hormonal, avaliada individualmente, pode ser uma ferramenta importante para restaurar o ambiente metabólico favorável ao emagrecimento. Não é para todas, mas deve ser uma conversa possível com sua médica.


Uma última coisa

Se você leu até aqui, é provável que esteja se reconhecendo em algum ponto desse texto. Quero que você saia daqui com uma certeza: o que está acontecendo com o seu corpo tem nome, tem causa e tem tratamento.


O primeiro passo é parar de se culpar e começar a investigar de verdade — com uma abordagem hormonal, individualizada e baseada em evidências.


No meu consultório, em Mogi das Cruzes, Osasco ou por telemedicina, esse é exatamente o trabalho que fazemos. Cada paciente chega com uma história única e um mapa hormonal único. A estratégia precisa ser à sua medida.


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Por Julyana Navajas 15 de março de 2025
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